Parque igarapé são joaquim

Parque Urbano Igarapé São Joaquim – Belém

Projeto vencedor em concurso público nacional.


caminho da canoa

O caminho de volta às raízes é o caminho da canoa, o igarapé. O corpo d’água navegável e vivo, que se percorre pelo movimento deslizante do remo, pelo motor das rabetas e dos popopôs. Mais do que instrumentos de navegação, são expressões da cultura e da estética do Pará. A presença da canoa, de volta ao igarapé, é tomada como sinal de vida, não apenas para o meio natural, mas em especial para as comunidades em volta. Nesse retorno às raízes, propõe-se trazer a comunidade para dentro do igarapé, de maneira equilibrada e sustentável, sem aterros nem obstruções ao caminho natural das águas. As estruturas leves e dinâmicas das palafitas, típicas das comunidades ribeirinhas tradicionais, serão a resposta construtiva para a apropriação delicada e respeitosa do igarapé, como suporte para os caminhos, os espaços de convivência e equipamentos comunitários de pequeno porte.


o parque como irradiador da transformação socioambiental da comunidade

O parque que se propõe ao longo do Igarapé São Joaquim e que se estende pela desembocadura do Una, em Belém, será ao mesmo tempo urbano, comunitário e agroflorestal. Tal característica resulta das particularidades e das potencialidades do contexto no qual se insere: (1) a presença urbana, social e cultural das comunidades de Barreiro, Sacramenta e Telégrafo, Zonas Especiais de Interesse Social, símbolos de expressão cultural, resistência e luta pela moradia em Belém; (2) a paisagem e a cultura já consolidadas de produção agroflorestal em pequena escala, praticada pelas comunidades ao longo do Igarapé e que tem suas raízes nas tradições dos povos originários; (3) a participação comunitária já observada nos bairros, evidenciada pelas hortas coletivas, espaços de lazer, eventos, campanhas e mutirões de limpeza.

O projeto está fundamentado na premissa de  que a transformação social, ambiental, urbana e paisagística do Igarapé deve se irradiar para dentro das comunidades, em vários aspectos: (a) evitar remoções e fortalecer dos laços afetivos e comunitários na gestão do espaço urbano e dos bens comuns;  (b) ruas mais acolhedoras, com arborização, espaços caminháveis e espaços verdes, como resultado das ações de mobilidade; (c) transformação econômica e social em decorrência da dinâmica de economia circular e colaborativa associada à gestão comunitária do parque; (d) melhoria da qualidade de vida de toda a comunidade, a partir das estratégias de eliminação do lançamento de esgotos e de resíduos no igarapé, com a criação de fossas coletivas e sistemas de alternativos de tratamento, filtragem e desinfecção;  (e) referências urbanísticas para os planos de urbanização das ZEIS que circundam o parque; (f) educação ambiental, enquanto atividade contínua, no processo de implantação e gestão; (g) criação, no interior das comunidades, dos quintais, pátios e praças agroflorestais, como irradiação dos canteiros agroflorestais do igarapé.
Se o caráter urbano do parque é definido pela centralidade, pelo potencial de conectividade com a cidade e pelas características de um entorno ao mesmo tempo precário em infraestrutura e rico em cultura, a paisagem rica e diversa da agrofloresta já se afirma como preexistência importante que remete às raízes da cultura local, de maneira sustentável. O espírito comunitário é o que tornará o parque não apenas um espaço de contemplação e de fruição da paisagem, como algo visto à distância, mas um lugar de vivência, de transformação ambiental, social e econômica das comunidades, que atuam não apenas como agentes passivos, mas como atores ativos na criação e gestão do parque.


retorno às raízes: a água como fonte de vida e afirmação cultural

A água, da chuva aos rios, em seus ciclos diários ou das estações, é elemento essencial na cultura Paraense. Mas se para os povos originários e para as comunidades ribeirinhas tradicionais sempre foi associada à vida e à saúde, por outro lado, para a população urbana que luta por condições mínimas de sobrevivência, a água tem se transformado em sinal de destruição e de doença. Não por culpa das águas, que quando não encontram barreiras, seguem seu ciclo natural; a cidade é que tem avançado de maneira agressiva sobre seu caminho, de modo que a fonte de vida tem se tornado recipiente de lixo e de poluição para tantas comunidades de Belém. Ações irregulares de uma urbanização sem controle eliminam os igarapés e sequestram as águas para galerias subterrâneas, onde se mesclam aos resíduos industriais e domésticos, antes de poluírem os poucos igarapés que ainda resistem.O Parque Urbano Comunitário Agroflorestal São Joaquim é proposto como um retorno às raízes: da água como fonte de vida e de afirmação cultural.


estratégias contra a gentrificação: os planos de urbanização das zeis

Condição essencial para que ocorra uma implantação sustentável do parque é a proteção social, urbanística e a melhoria da qualidade ambiental das comunidades Barreiro, Sacramenta, Telégrafo e áreas adjacentes, classificadas como zonas especiais de interesse social. Para isso, entende-se como estratégia fundamental a integração entre o Plano Diretor do Parque e os Planos de Urbanização das ZEIS. Sem a devida proteção legal e a necessária qualificação urbanística e ambiental, as comunidades correm o risco de serem gradativamente expulsas de seus locais de moradia, em decorrência da valorização imobiliária que resultaria da implantação do parque e das melhorias na infraestrutura urbana do entorno. Nesse sentido, as principais estratégias contra a gentrificação devem ser baseadas na indissociabilidade entre parque e comunidade, não apenas enquanto projeto, mas principalmente na sua gestão.


urbanismo tático, social e comunitário

o processo de participação como meio de apropriação

A apropriação comunitária do Igarapé São Joaquim enquanto parque pode ocorrer em pouco tempo e com pequeno volume de recursos. A partir da combinação de um conjunto de pequenas ações de urbanismo e paisagismo táticos, de curto e médio prazo e que dependem de pouco investimento, é possível criar situações de grande retorno socioambiental e comunitário, que irão contribuir para a formação de um espírito de apropriação gradativa do parque.

Esse processo de apropriação gradativa por meio da participação é fundamental para que, com o tempo e o recurso necessários, seja possível implantar o parque idealizado e desejado por todos – com navegabilidade, águas limpas, equipamentos urbanos, paisagismo consolidado e transformações de mobilidade.

É com base nesse processo que se fundamenta este projeto, previsto para ser implantado nas três etapas cumulativas descritas a seguir:


etapa 1

baixo volume de investimentos, curto prazo, retorno socioambiental e comunitário imediato.

ações gerais: (1) incentivo à criação de cooperativas para a gestão socioambiental do parque; (2) oficinas de discussão e desenvolvimento do projeto; (3) mutirões e campanhas permanentes de limpeza e educação socioambiental; (4) estratégias de urbanismo e paisagismo táticos e sociais: (4.1) fechamentos periódicos das vias marginais do igarapé para a realização de eventos e passeios ciclísticos; (4.2)  feiras e eventos de gastronomia, música, arte e artesanato com produtos locais; (4.3) oficinas de plantio e manejo de mudas para o parque; (4.4) início do processo de fitorremediação associado à educação ambiental; (4.5) mudanças iniciais no sistema viário, com a transformação das vias de sentido sentido duplo em sentido único para qualificação dos espaços públicos, com novas rotas de transporte coletivo.


etapa 2

médio volume de investimentos, médio prazo, grande retorno socioambiental e comunitário.

ações gerais (além da continuação das atividades da etapa 1), com a participação das cooperativas e associações incluídas na etapa inicial: (1) consolidação das mudanças do sistema viário, com a implantação de calçadas e canteiros; (2) eliminação das ligações clandestinas de esgoto e implantação dos sistemas coletivos de tratamento associados às estratégias de paisagismo; (3) remoção das ocupações irregulares ao longo do igarapé e substituição por espaços de uso coletivo; (4) plantio de vegetação nas ruas e ao longo do igarapé, com a participação da comunidade; (5) início da construção das estruturas em palafitas às margens do igarapé para passeios, ciclovias e espaços de convivência; (6) limpeza intensiva e dragagem do igarapé (dragas flutuantes nas áreas de difícil acesso).


etapa 3

grande volume de investimentos, longo prazo, máximo retorno socioambiental, urbanístico, paisagístico e comunitário.

ações gerais (além da continuação das ações das etapas 1 e 2): (1) conclusão das construções sobre palafitas e estruturas flutuantes, dos passeios, ciclovias, espaços de convivência e módulos de apoio ao longo das margens do igarapé; (2) implantação de equipamentos comunitários e mobiliário urbano ao longo das vias marginais e demais espaços comunitários; (3)conclusão do plantio e consolidação do projeto paisagístico; (4)conclusão da construção das novas transposições de pedestres e viárias; (5) transposição sobre a av. júlio césar e conexão com o parque ecológico; (6) implantação dos equipamentos comunitários de médio e grande porte; (7) implantação das praças de mobilidade e serviços, com estações intermodais e integração das redes de transporte coletivo; (8) implantação do vlp ao longo da marginal do parque (linha parque ecológico – baía do guajará).


participação e gestão coletiva do bem comum

O parque será um projeto coletivo e dinâmico, em que as soluções e os modos de gestão serão discutidos conforme as necessidades e os desejos dos principais usuários, que também serão os gestores: os moradores das comunidades. Para isso, a participação é necessária nas diversas etapas de implementação do parque: o projeto, a execução e a gestão. A fim de alcançar esse objetivo, são propostas algumas estratégias para facilitar a gestão compartilhada e participação social: (a) oficinas colaborativas deliberativas; (b) prototipação e implementação de projetos por módulos; (c) abrigos para atividades comunitárias e de gestão; (d) mecanismos legais que dêem suporte às iniciativas cidadãs.


economia social e solidária

As margens do Igarapé São Joaquim são atualmente apropriadas pela comunidade como suportes (físicos ou naturais) para a economia local: hortas, bares, feiras, unidades de comércio, plantio, extração e beneficiamento de açaí e frutas nativas diversas. A proposta é que o parque seja uma fonte para a dinamização sustentável da economia das comunidades; fazer circular, entre o igarapé e a comunidade, a cultura dinâmica das feiras e mercados, típica da cultura de Belém, seja nas palafitas, nos trapiches, nas canoas ou nas estruturas flutuantes, e daí para as ruas, calçadas, pátios e praças das comunidades, em um processo de economia social e solidária.


ações complementares 

São propostas ações complementares, fora da poligonal inicial do projeto, que não são condicionantes para a implantação do parque, mas que se viabilizadas irão ampliar a qualidade urbanística, ambiental e paisagística das comunidades e da cidade como um todo. Alguns exemplos: (1) criação de estação hidroviária integrada à estação intermodal do parque, às margens da Baía do Guajará, com a inclusão de mais um ponto à rede hidroviária de Belém (linha Ver o Peso – Icoaraci); (2) desapropriação de partes de áreas que atualmente estão sob o domínio privado (ou de empresas públicas, como a Cosanpa e a Eletronorte) para a implantação de “faixas verdes” ao longo das vias, com a implantação de equipamentos comunitários e tratamento paisagístico (ver detalhamentos dos trechos).


paisagem e meio ambiente

A proposta para o parque urbano igarapé são joaquim tem como ponto de partida o reconhecimento da paisagem como expressão de múltiplas visões e campos (meio ambiente, arquitetura, urbanismo, geografia, antropologia, etnografia, sociologia…). Entende-se a paisagem, portanto, como uma expressão do lugar, que carrega toda a densidade e diversidade de significados, cores, sabores, texturas, hábitos alimentares e manifestações culturais da comunidade
A partir dessa perspectiva, o projeto parte das seguintes premissas: (1) reconhecimento e consolidação das práticas agroflorestais já aplicadas pela comunidade; (2) atenção aos efeitos das mudanças climáticas e a resiliência ambiental; (3) conectividade entre remanescentes de floresta ainda existentes ao longo do igarapé e no entorno; (4) criação, por meio do paisagismo agroflorestal, de uma rede de serviços ambientais associada a espaços de lazer, educação e pesquisa; (4) o paisagismo como elemento de suporte e incentivo à economia social e solidária; (5) integração entre o paisagismo e os equipamentos sociais e comunitários; (6) apropriação sustentável do igarapé, com estratégias de paisagismo que favoreçam o fluxo das águas, a filtragem de resíduos e a fitorremediação; (7) nas etapas de projeto, execução e manejo, dar visibilidade às guardiãs e aos guardiões do conhecimento sobre as plantas e sua relação com a saúde (propriedades medicinais), a sacralidade (culturas tradicionais) e cultura local.


agrofloresta

sobre as funções ambiental, social e estética do paisagismo

O sistema agroflorestal combina a cultura agrícola às espécies da floresta. Enquanto estratégia de paisagismo, o sistema combina a riqueza estética das espécies vegetais em suas várias composições de texturas, cores, perfumes e tamanhos, a função social do plantio comunitário de alimentos (uma prática já observada ao longo do Igarapé São Joaquim) e a função ambiental, no tratamento dos efluentes e na fitorremediação das águas do igarapé

O sistema agroflorestal inserido no contexto do igarapé, além da função de recomposição da paisagem natural, é uma importante alternativa de inclusão social e produtiva na agricultura comunitária de microescala, ao possibilitar geração de trabalho e renda, e proporcionar alternativas complementares de segurança alimentar e nutricional. Ao mesmo tempo, promove a recuperação de áreas degradadas e a adequação ambiental do ambiente urbano com a participação ativa da comunidade na gestão do bem comum (cooperativas agroflorestais comunitárias).
As espécies e composições paisagísticas seguem as diretrizes do manual e do plano de arborização de Belém, com prioridade às espécies nativas e adaptadas preexistentes. Como premissa serão utilizadas prioritariamente as espécies nativas florestais e mantidas, sempre que possível, as composições existentes nos locais. Nas áreas em que há restrições para as composições agroflorestais, como é o caso da arborização ao longo dos passeios e vias públicas, serão utilizadas as espécies e orientações do manual, em especial no que se refere à adequabilidade do espaço aéreo e subterrâneo, assim como a velocidade de crescimento e os frutos. As composições agroflorestais (baseadas na coexistência em média e alta densidade de espécies nativas de vários estratos, portes e tipologias) serão utilizadas prioritariamente ao longo do igarapé.


interatividade e participação

A linearidade do parque, se por um lado gera espaços verdes de menor área e de pouca profundidade em relação aos parques tradicionais, por outro, apresenta maiores regiões de contato e de interação, o que amplia as possibilidades de participação comunitária, seja no plantio, no manejo, nos cuidados ou nas múltiplas perspectivas de apreensão da paisagem.


cores, texturas e sentidos

O que se propõe é explorar as mais diversas formas de apreensão do espaço: cores, sons, texturas, perfumes e sabores, que estão na paisagem, nos frutos, nas embarcações, nas pessoas, nos eventos comunitários e na arquitetura (enquanto suporte e abrigo por onde transitam todos esses sentidos). São elementos que se fundem, como expressões vivas da cultura local.


um parque vivo e dinâmico

Propõe-se um parque vivo e dinâmico. É da natureza própria do igarapé a dinâmica, que está presente no ciclo das águas e da agrofloresta (plantio, crescimento, manejo, flora, fruto, colheita e manutenção). A dinâmica também está presente nas comunidades, que se transformarão em conjunto com o parque. Nesse sentido, este projeto não deve ser lido como uma imagem estática e finita, mas como registro das potencialidades paisagísticas, urbanas e socioambientais.


lixo, esgoto, assoreamento e aterros irregulares: um problema socioambiental

O primeiro e grande desafio para a implementação do parque é mudar a relação da comunidade com o igarapé. Romper o círculo vicioso da degradação e iniciar um ciclo sustentável de apropriação comunitária.  A principal e mais urgente ação para que seja possível a implantação do parque é um processo de educação socioambiental vinculado à melhoria da infraestrutura básica de esgoto, coleta do lixo e incentivo às ações comunitárias de apropriação sustentável do igarapé.


tratamento dos efluentes sanitários e fitorremediação

Por se tratar de área de alta densidade urbana, com grande volume de chuvas e com lençol freático superficial, o tratamento dos efluentes sanitários deve estar integrado às soluções de paisagismo, a fim de evitar a contaminação do igarapé. Propõe-se um sistema sustentável de baixo custo, que combina fossas sépticas coletivas; filtro anaeróbico; zona de raízes; desinfecção; fitorremediação e, finalmente, a disposição final da água limpa nas redes de drenagem e nos corpos d’água, sem risco de contaminação. Os sistemas serão instalados nos espaços verdes criados a partir da reformulação das ruas; nas margens dos igarapés;nos quintais agroflorestais e pátios de uso coletivo e nas áreas residuais urbanas, em projetos discutidos com a comunidade. Algumas estratégias de fossas coletivas em pátios de uso comum já demonstraram bons resultados socioambientais nas comunidades de Barreiro e Sacramenta. As zonas de raízes e fitorremediação terão função ao mesmo tempo ambiental e paisagística, onde serão utilizadas espécies como a Taboa, o Iguapé e a Orelha de Onça (entre outras espécies nativas ou adaptadas). Tais espécies reduzem a contaminação bacteriana de águas, permitindo reduções de até 98% da concentração de enterobactérias potencialmente patogênicas, como os efluentes de esgotos.


dragagem e desassoreamento

O processo permanente de dragagem e desassoreamento utilizará prioritariamente o potencial de transporte aquaviário a ser implantado no igarapé, por meio de pequenas embarcações equipadas com dragas de sucção flutuantes, que farão a limpeza onde as dragas mecânicas de grande porte não acessam. Também faz parte do processo equipar e instruir a equipe de coleta  no tratamento dos resíduos provindos das dragagens.


mobilidade ativa, multimodal e sustentável

a rua e o igarapé como espaços de encontro e circulação

A proposta de mobilidade para o parque e o entorno se baseia na premissa de que a rua é o espaço das pessoas e que deve ser considerada como elemento fundamental para a vida em comunidade, além de suporte para a mobilidade ativa e a qualidade socioambiental do bairro. Parte-se também da premissa que melhorias no sistema de mobilidade e na qualidade das ruas têm impacto direto na qualidade socioambiental do parque. Nesse sentido, as principais estratégias, para todas as vias, são: (1) priorizar o transporte público, com sistemas multimodais de baixo impacto ambiental; (2) ampliar o espaço das pessoas e das bicicletas; (3) criar áreas verdes para canteiros e faixas de serviço (vegetação para sombreamento, esgoto, drenagem, iluminação pública e mobiliário urbano); (4) reduzir a presença dos veículos motorizados individuais.

É importante ressaltar que a mobilidade, em especial no contexto de bairros adensados em áreas centrais, não depende de velocidade, nem do número de faixas ocupadas por carros individuais. As principais soluções para esse contexto estão associadas à conectividade e à frequência na rede de transportes coletivos integrados, além da criação de espaço e infraestrutura para a mobilidade ativa (calçadas e ciclovias). 

No caso da área do parque e das comunidades adjacentes, a maioria das pessoas – apesar da precariedade da infraestrutura e dos sistemas –  já utiliza o transporte público, a bicicleta e caminham, o que aumenta a potencialidade de uma proposta baseada na mobilidade ativa e no coletivo. Apenas uma minoria da população local possui carros e a tendência é reduzir esse uso, com a implantação da infraestrutura de mobilidade ativa integrada ao sistema multimodal de transporte coletivo sustentável. Existem referências importantes, já implantadas em comunidades no Pará, em que se observa a redução ou eliminação da circulação de carros e a prioridade aos pedestres e às bicicletas. É o caso de Afuá, no extremo norte do Estado, entre outras comunidades ribeirinhas que seguem o mesmo modelo sustentável. 

Consideradas as premissas gerais, as soluções específicas serão adaptadas conforme as seguintes tipologias de vias:


vias marginais dos igarapés

(referência típica: marginais do igarapé são joaquim)Ampliação de calçadas com áreas verdes e faixas de serviços; implantação de ciclovias; prioridade ao transporte público complementar (micro-ônibus) e VLP integrados a outros modais; manutenção da largura das vias; redução da velocidade (zona 30km/h). A capacidade de mobilidade será ampliada, com a prioridade ao transporte coletivo, as calçadas e as ciclovias. Para a margem norte propõe-se, na etapa final do projeto, a implantação de VLP que irá conectar o Parque Ecológico até a Baía do Guajará. Será utilizado, como referência, o sistema de Medellín, na Colômbia, que se mostrou viável do ponto de vista técnico e financeiro, em um contexto semelhante: área de baixa renda, caracterizada pela precariedade urbana, com recursos limitados. Para a margem sul, serão previstos sistemas complementares de transporte público (micro-ônibus, considerando tratar-se de vias estreitas), que farão a linha circular entre as comunidades, o parque e o sistema de BRT, previsto para a Av. Pedro Álvares Cabral.


vias de transporte público complementar

(referência típica: passagem mirandinha)Ampliação de calçadas com áreas verdes e faixas de serviços; implantação de ciclovias; prioridade ao transporte público complementar (micro-ônibus) integrado a outros modais; redução das faixas de veículos motorizados;  redução da velocidade (zona 30km/h). Mesmo com a redução do número de faixas, a capacidade de mobilidade será ampliada, com a prioridade ao transporte coletivo, as calçadas e as ciclovias. A fim de evitar remoções, por se tratar de áreas altamente densas, o ganho de espaço para as calçadas e canteiros resulta da transformação das vias de sentido duplo de duas faixas, em vias de sentido único.


vias de circulação interna e acesso local

(referência típica: ruas internas das comunidades)Ampliação de calçadas com áreas verdes e faixas de serviços; espaços para bicicletas em via compartilhada com automóveis; não há circulação de transporte público nessas vias de acesso local (haverá vias secundárias de transporte público a menos de 500 metros de cada via local); redução das faixas de veículos motorizados;  redução da velocidade (zona compartilhada entre carros e bicicletas, 20km/h).


praças de mobilidade, serviços e estações intermodais

Outra premissa importante para o projeto de mobilidade é o conceito de sistema multimodal. A ideia é que os diversos modais estejam integrados: caminhar, bicicleta, micro-ônibus, VLP, BRT e o sistema hidroviário. Para isso serão criadas praças de mobilidade e serviços, com duas estações intermodais: Estação Parque Ecológico e Estação Baía do Guajará, ambas com embarcações de pequeno porte (canoas, rabetas e popopôs), VLP, BRT, bicicletas e transporte complementar.


uma janela para a baía do guajará

O projeto ainda prevê, às margens da Baía do Guajará, na Área de Interesse para Fins de Recuperação Urbanística e Paisagística (Setor A do Plano Diretor),  a possibilidade de criação daestação hidroviária Igarapé São Joaquim, integrada ao parque, como um ponto adicional à linha hidroviária existente, que liga o Ver o Peso a Icoaraci.


navegabilidade: o igarapé e os modais hidroviários

De acordo com registros recentes, observou-se que enquanto o nível da água na baía chega a 3,60m, no São Joaquim a média é de 1,20m. Os estudos e as observações no local revelam que, se considerado o nível médio das águas do São Joaquim (1,20m), e o cenário futuro proposto no projeto, de despoluição e desassoreamento, é possível a navegabilidade de pequenas embarcações (canoas, rabetas e popopôs compactos, com no máximo 1,50 metros acima da lâmina d’ãgua). Com a dragagem e o desassoreamento, os níveis atuais das transposições podem ser mantidos, sem a necessidade de reconstrução das pontes de veículos motorizados. As novas passarelas de pedestres, bicicletas e viárias propostas no projeto terão, portanto, elevações suficientes para a passagem de embarcações de pequeno porte. A navegabilidade do Igarapé São Joaquim, Una e adjacências, permite uma nova relação das comunidades com a água, com impactos importantes na mobilidade, na preservação ambiental, na educação e na economia: feiras flutuantes, eventos, roteiros turísticos.


módulos de apoio, equipamentos comunitários e mobiliário urbano

Os módulos de apoio serão espaços dinâmicos e flexíveis, que atuam como suportes físicos para as atividades comunitárias no parque (comércio, serviços, espaços de reunião das associações e cooperativas, lavanderias comunitárias, educação ambiental, apoio para viveiros de mudas, sanitários e vestiários, etc).  Serão executados em madeira, tanto pelas premissas de sustentabilidade do material e da técnica construtiva (materiais recicláveis, modulados, com o mínimo de resíduos), quanto pela função estética e cultural da paisagem ribeirinha.

Os equipamentos comunitários de maior porte também seguem a premissa de sustentabilidade. Serão modulados e flexíveis, construídos em aço e madeira, a fim de otimizar a construção e gerar o mínimo de resíduos. Os equipamentos são projetados para garantir sua autonomia energética, com a utilização de placas solares, reaproveitamento de águas pluviais e sistemas ecológicos de tratamento de esgotos. As mesmas premissas, de modulação, flexibilidade e utilização de materiais de baixo impacto ambiental, serão adotadas para o mobiliário urbano.


Arquitetura: GSR arquitetos

Autores: Fabiano Sobreira e Paulo Ribeiro

Colaboradores: Luana Alves, Lucas Sousa e Luísa Porfírio

Consultoria de meio ambiente e sistemas agroflorestais: Helena Maltez